domingo, 11 de janeiro de 2015

Casamento Gay por Elizabeth Gilbert autora de Comer, rezar e amar

  
   Minha leitura atual é o livro "Comprometida", publicado em 2009 pela Editora Objetiva, da autora Elizabeth Gilbert, ela - americana - conta como foi ter de se casar (mesmo não acreditando na instituição) para ter o direito de viver com Felipe - seu marido brasileiro.  
   No capítulo 2, a autora aborda o caráter histórico do casamento, como antigamente a instituição era vista: um acordo comercial e nada mais. Fala sobre a interferência da igreja, o casamento interracial, o divórcio e por fim, o casamento gay. 
   É exatamente este trecho que gostaria de dividir com vocês, é extenso, mas vale a pena ler cada linha. Elizabeth Gilbert é inteligente e irônica na medida certa.

"Você se surpreenderia se eu aproveitasse alguns minutinhos para discutir o assunto do casamento de pessoas do mesmo sexo? Por favor,  entenda que sei que muita gente tem opinião formada e extremada sobre esse tema. Não há dúvida de que o então parlamentar James M. Talent, do Missouri, Falou por muitos quando disse, em 1996, que "é um ato de arrogância acreditar que o casamento possa ser infinitamente maleável, que possa ser empurrado ou puxado como massa de modelar sem destruir a sua estabilidade essencial e o seu significado para a nossa sociedade."
Mas o problema desse argumento é que a coisa que o casamento mais fez, falando em termos de história e definição, foi mudar. No mundo ocidental, o casamento muda a cada século, ajustando-se o tempo todo aos novos padrões sociais e às novas noções de justiça. Na verdade, é por causa da maleabilidade da instituição, digna de massa de modelar, que ainda existe. Pouquíssima gente, inclusive sr.Talent, posso apostar, aceitaria o casamento nos moldes tradicionais do século XIII. Em outras palavras, o casamento sobrevive exatamente porque evolui. (Embora eu suponha que esse não seja um argumento muito convincente para quem, provavelmente, também não acredita em evolução.)
Num espírito de total transparência, vou deixar claro aqui que apoio o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Claro que teria de ser assim; sou exatamente este tipo de pessoa. A razão pela qual abordo esse tópico é que me irrita profundamente saber que, pelo ato do casamento, tenho acesso a alguns privilégios sociais básicos que um grande número de amigos e colegas contribuintes não têm. E me irrita ainda mais saber que, se Felipe e eu, por acaso, fôssemos um casal do mesmo sexo, teríamos problemas realmente graves depois daquele incidente no aeroporto de Dallas/Fort Worth. O Departamento de Segurança Interna daria uma olhada no relacionamento e chutaria o meu parceiro para fora do país para sempre, sem nenhuma esperança de futura liberdade condicional por meio do casamento. Assim, é estritamente por conta das minhas credenciais heterossexuais que posso assegurar a Felipe um passaporte americano. Nesses termos, o meu casamento iminente começa a parecer a filiação a um clube de campo exclusivo, um meio de me oferecer amenidades preciosoas negadas aos meus vizinhos igualmente merecedores. Esse tipo de discriminação nunca vai me cair bem e só aumenta a desconfiança natural que eu já sentia pela instituição.
Ainda assim, hesito em discutir com mai detalhes os aspectos específicos desse determinado debate social, no mínimo porque o casamento gay é uma questão tão cadente que quase é cedo demais para publicar livros sobre o assunto. Duas semanas antes de eu me sentar para escrever este parágrafo. o casamento entre pessoas do mesmo sexo foi legalizado no estado americano de Connecticut. Uma semana depois, foi declarado ilegal no estado da Califórnia. Enquanto eu relia este parágrafo, alguns meses depois, explodiu a maior confusão nos estados de Iiwa e Vermont. Não demorou muito para New Hampshire se tornar o sexto estado americano a legalizar o casamento entre pessoas do mesmo sexo, e começo a acreditar que, o que quer que eu declare hoje sobre o casamento gay nos Estados Unidos, é provável que esteja obsoleto na tarde de terça-feira de que vem.
Mas o que posso dizer sobre esse assunto é que o casamento legalizado entre pessoas do mesmo sexo está chegando aos Estados Unidos. Em boa parte isso acontece porque o casamento não legalizado entre pessoas do mesmo sexo já existe. Hoje, casais do mesmo sexo já moram juntos às claras, quer a relação tenha sido sancionada oficialmente pelo Estado, quer não. Juntos, os casais do mesmo sexo estão criando filhos, pagando impostos, construindo lares, administrando empresas, criando riqueza e até se divorciando. Todos esses relacionamentos e responsabilidades sociais já existentes têm de ser administrados e organizados pela lei para manter o bom funcionamento da sociedade civil. (É por isso que, nos Estados Unidos, pela primeira vez, o recenseamento de 2010 vai registrar como "casados" os casais do mesmo sexo, para mensurar com clareza a verdadeira situação demográfica do país.) os tribunais federais acabarão perdendo a paciência, como aconteceu no caso do casamento inter-racial, e decidirão que é muito mais fácil dar acesso ao matrimônio a todos os adultos que o desejem do que resolver a questão de estado em estado, de emenda em emenda, de xerife em xerife, de preconceito pessoal em preconceito pessoal.
É claro que os conservadores sociais talvez ainda acreditem que o casamento homossexual está errado porque o propósito do matrimônio é ter filhos, mas heterossexuais estéreis, em filhos e pós-menopausa se casam o tempo todo e ninguém protesta. (O comentarista político arquiconservador Pat Buchanan e a esposa não têm filhos, só para servir de exemplo, e ninguém sugere que os seus privilégios conjugais tenham de ser revogados por não haver geração de progênie biológica.) E quanto à noção de que o casamento entre pessoas do mesmo sexo corrompe a comunidade em geral, ninguém ainda foi capaz de provar isso num tribunal. Ao contrário, centenas de entidades científicas e sociais - desde a Academia Americana de Médicos de Família e a Associação Psicológica Americana até a Liga de Bem-Estar Infantil da América - endossaram publicamente tanto o casamento gay quanto a adoção gay.
Mas o casamento gay está chegando aos Estados Unidos principalmente porque aqui o casamento é uma questão secular e não religiosa. Quase sempre, a objeção ao casamento gay é bíblica, mas neste país nenhum compromisso jurídico é definido pela interpretação dos versículos da Bíblia, pelo menos desde que a Suprema Corte defendeu Richard e Mildred Loving (casal interracial). A cerimônia de casamento na igreja é bonita, mas não é exigida para o casamento ser legal nem configura um casamento legal nos Estados Unidos. Nesse país, o que configura o casamento legal é aquele papelucho importantíssimo que os noivos têm de assinar e registrar junto ao Estado. A moralidade do casamento pode ficar entre você e Deus, mas aquela papelada civil e secular é que torna os votos oficiais aqui na Terra. Assim, em última análise, cabe aos tribunais dos Estados Unidos e não às igrejas dos Estados Unidos decidir sobre as regras da lei matrimonial, e é nesses tribunais que o debate do casamento entre pessoas do mesmo sexo será finalmente resolvido.
(...)
Reconheço que os conservadores temem que os homossexuais destruam e corrompam a instituição do casamento, mas talvez devesse pensar na outra possibilidade de que os casais gays, na verdade, neste momento da história, estejam em condições de salvar o casamento. Pensem só! O casamento está em declínio em toda parte, em todo o mundo ocidental. Todos estão se casando mais tarde, quando se casam, ou produzem filhos a contragosto, fora do casamento, ou (como eu) abordam a instituição como um todo com ambivalência e até hostilidade. Não confiamos mais no casamento, muitos de nós, héteros. Não o entendemos. Não estamos nada convencidos de que precisamos dele. Sentimos que é um caso de ame-o ou deixe-o para sempre. E tudo isso deixa o pobre matrimônio a se contorcer com o vento frio da modernidade.
Mas, bem na hora em que tudo parece perdido para o casamento, bem na hora em que o matrimônio está prestes a se tornar tão descartável, em termos evolutivos, quanto o mindinho do pé e o apêndice, bem na hora em que a instituição parece condenada a murchar no esquecimento devido à falta generalizada de interesse social, surgem os gays pedindo para participar! Na verdade, implorando para participar! Na verdade, lutando com todas as forças para participar de um costume que pode ser extremamente benéfico para a sociedade como um todo, mas que muitos, como eu, achamos apenas sufocante, antiquado e irrelevante.
Talvez pareça irônico que os homossexuais - que, no decorrer dos séculos , transformaram em arte a vida boêmia nas margens da sociedade - queiram agora, com tanto desespero, fazer parte de uma tradição tão convencional. Sem dúvida, nem todo mundo entende essa ânsia de ser assimilado, nem mesmo dentro da comunidade gay. O cineasta John Waters, por exemplo, diz que sempre achou que as únicas vantagens de ser gay eram não ter de prestar o serviço militar nem ter de se casar. Ainda assim, é verdade que muitos casais do mesmo sexo querem simplesmente fazer parte da sociedade como cidadãos totalmente integrados, com responsabilidade social, centrados na família, pagadores de impostos, torcedores do time de seus filhos, servidores da nação e respectivamente casados. Então, por que não lhes dar as boas-vindas? Por que não recrutá-los aos montes para que, com asas heroicas, salvem a velha instituição puída e debilitada do matrimônio de um bando de heterossexuais inúteis, apáticos e imprestáveis como eu?
De qualquer modo, aconteça o que acontecer com o casamento gay, também posso assegurar que, algum dia, as futuras gerações acharão ridículo, a ponto de morrer de rir, que tenhamos debatido esse tópico, do mesmo modo que hoje parece absurdo que antigamente fosse estritamente ilegal um camponês inglês se casar com alguém que não fosse da sua classe ou um cidadão americano branco se casar com alguém da "raça malaia". E isso nos leva a última razão para o casamento gay estar chegando: o casamento no mundo ocidental, nos últimos séculos vem avançando, lenta mas inexoravelmente, na direção de cada vez mais privacidade pessoal, cada vez mais justiça, cada vez mais respeito pelos indivíduos envolvidos e cada vez mais liberdade de escolha.

Trecho retirado das Pg 71 a 75.

Não estou ganhando um centavo para divulgar este texto ou o livro. Acredito que muitas pessoas, gays ou não, gostarão de ter acesso a este texto maravilhoso. 
Vale a pena ler o livro todo!
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