sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Invisibilidade pública

'O HOMEM TORNA-SE TUDO OU NADA, CONFORME A EDUCAÇÃO QUE RECEBE'

'Fingi ser gari por 8 anos e vivi como um ser invisível'


Psicólogo varreu as ruas da USP para concluir sua tese de mestrado da
'invisibilidade pública'. Ele comprovou que, em geral, as pessoas
enxergam apenas a função social do outro. Quem não está bem posicionado
sob esse critério, vira mera sombra social.


Plínio
Delphino, Diário de São Paulo.


O psicólogo social Fernando Braga da Costa vestiu uniforme e trabalhou

oito anos como gari, varrendo ruas da Universidade de São Paulo. Ali,

constatou que, ao olhar da maioria, os trabalhadores braçais são 'seres

invisíveis, sem nome'. Em sua tese de mestrado, pela USP, conseguiu

comprovar a existência da 'invisibilidade pública', ou seja, uma

percepção humana totalmente prejudicada e condicionada à divisão

social do trabalho, onde enxerga-se somente a função e não a pessoa.

Braga trabalhava apenas meio período como gari, não recebia o salário de

R$ 400 como os colegas de vassoura, mas garante que teve a maior lição

de sua vida:


'Descobri que um simples bom dia, que nunca recebi como gari, pode

significar um sopro de vida, um sinal da própria existência', explica o

pesquisador.


O psicólogo sentiu na pele o que é ser tratado como um objeto e não

como um ser humano. 'Professores que me abraçavam nos corredores da USP

passavam por mim, não me reconheciam por causa do uniforme. Às vezes,

esbarravam no meu ombro e, sem ao menos pedir desculpas, seguiam me

ignorando, como se tivessem encostado em um poste, ou em um orelhão',

diz.

No primeiro dia de trabalho paramos pro café. Eles colocaram uma

garrafa térmica sobre uma plataforma de concreto. Só que não tinha

caneca. Havia um clima estranho no ar, eu era um sujeito vindo de outra

classe, varrendo rua com eles. Os garis mal conversavam comigo, alguns

se aproximavam para ensinar o serviço. Um deles foi até o latão de lixo

pegou duas latinhas de refrigerante cortou as latinhas pela metade e

serviu o café ali, na latinha suja e grudenta. E como a gente estava num

grupo grande, esperei que eles se servissem primeiro. Eu nunca apreciei

o sabor do café. Mas, intuitivamente, senti que deveria tomá-lo, e

claro, não livre de sensações ruins. Afinal, o cara tirou as latinhas de

refrigerante de dentro de uma lixeira, que tem sujeira, tem formiga, tem

barata, tem de tudo. No momento em que empunhei a caneca improvisada,

parece que todo mundo parou para assistir à cena, como se perguntasse:

'E aí, o jovem rico vai se sujeitar a beber nessa caneca?' E eu bebi.

Imediatamente a ansiedade parece que evaporou. Eles passaram a conversar

comigo, a contar piada, brincar.


O que você sentiu na pele, trabalhando como gari?

Uma vez, um dos garis me convidou pra almoçar no bandejão central. Aí

eu entrei no Instituto de Psicologia para pegar dinheiro, passei pelo

andar térreo, subi escada, passei pelo segundo andar, passei na

biblioteca, desci a escada, passei em frente ao centro acadêmico, passei

em frente a lanchonete, tinha muita gente conhecida. Eu fiz todo esse

trajeto e ninguém em absoluto me viu. Eu tive uma sensação muito ruim. O

meu corpo tremia como se eu não o dominasse, uma angustia, e a tampa da

cabeça era como se ardesse, como se eu tivesse sido sugado. Fui almoçar,

não senti o gosto da comida e voltei para o trabalho atordoado.


E depois de oito anos trabalhando como gari? Isso mudou?

Fui me habituando a isso, assim como eles vão se habituando também a

situações pouco saudáveis. Então, quando eu via um professor se

aproximando - professor meu - até parava de varrer, porque ele ia passar

por mim, podia trocar uma idéia, mas o pessoal passava como se tivesse

passando por um poste, uma árvore, um orelhão.


E quando você volta para casa, para seu mundo real?

Eu choro. É muito triste, porque, a partir do instante em que você está

inserido nessa condição psicossocial, não se esquece jamais. Acredito

que essa experiência me deixou curado da minha doença burguesa. Esses

homens hoje são meus amigos. Conheço a família deles, freqüento a casa

deles nas periferias. Mudei. Nunca deixo de cumprimentar um trabalhador.

Faço questão de o trabalhador saber que eu sei que ele existe. Eles são

tratados pior do que um animal doméstico, que sempre é chamado pelo

nome. São tratados como se fossem uma 'COISA'.

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