quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Kafka

Acaba de passar pela sala uma barata. O que dizer da dona desta casa? Onde seu capricho, seus panos e vassouras, esfregões e químicas, se ela permite uma barata a correr pela sala?

A visita descomposta logo parte, levando a público a imagem da barata em linha reta, íntima, rente ao tapete, correndo definidamente. Logo todos falarão da barata. E nem o consolo de ter sido uma barata alada ou uma kafkiana humabarata ou colorida ou lenta. A incomensurável humilhação da corrida da barata pela sala, na presença da visita, beirando o tapete português.

Saída a visita, ombros caídos, é deixar livros e papéis de lado e lembrar, como os sábios, da obrigação antes da devoção: vassouras duas, panos alguns, um espano, três produtos de limpeza de cheiro acre e efeito garantido contra visitas. Afastar móveis, desalojar teias de aranha, limpar altos e baixos, esfregando com força, socando almofadas com o ódio retido pela própria condição. Antes de poetar há que limpar e cozinhar. Porque há um homem lá fora, no mundo, a trabalhar arduamente para trazer para casa o pão suado - tão melhor seria uma pizza quentinha - e aqui dentro temos o ócio instalado.

Correr, bater com a vassoura na visita, espanar a visita para fora, limpar com panos e químicos os resíduos no chão. Esfregar a culpa pelo chão. Recolher tudo à vagina murcha e, escondido, voltar a escrever.

Publicado na versão em inglês pela Pyramid Press, Londres (1996) na Antologia "To Her Naked Eye", ed. Rachel Lever


Nenhum comentário: