domingo, 23 de novembro de 2008

Os ombros suportam o mundo

"Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
Mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada espera de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais do que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentros dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação."

(Carlos Drummond de Andrade)

Li esse poema hoje no Poemblog

5 comentários:

Dauri Batisti disse...

Tenho "cd" de poemas e gosto de ouvir poesia dirigindo. Dentre eles tenho um em que Drumond declama alguns dos seus poemas, este inclusive. Lindo.

. Budz . disse...

Isso não é apatia, isso não é nostalgia tampouco indiferença, é a realidade que não respeita época muito menos credo ou ciência!

Entendi bem o que "Seu Carlos" quis dizer, quase me enquadro nesse sistema que sem perceber ele propôs!

Paz, bom Ctrl+C Ctrl+v! ^^.

Welton ''Shiryu'' disse...

Drummond é meu poeta favorito, embora também goste do Bandeira.
Te linkei, moça.
bjo

Carla disse...

Drummond, sempre!
Seus versos traduzem o que vai pelo nosso coração.
Bjo e otima semana, quilida!

Pavón disse...

Fico aqui me perguntando se podemos chamar isso de amadurecimento ou de total falta de fé no mundo... sinceramente nao sei a resposta.

Beijos