domingo, 1 de junho de 2008

Grades Azuis

Para a prisão do cotidiano.

As grades são azuis, mas são grades. Verifiquei que com o tempo só ando de agasalho. Não porque sinto tanto frio, mas esse maldito ar condicionado me impede de sentir o clima como verdadeiramente está. É um absurdo (dizem) a gente perder tempo com poesia. Para que poesia? São azuis as grades. E as grades continuam sendo grades, mesmo sendo azuis.
O ar condicionado pede o agasalho, enquanto o sol lá fora é bloqueado, proibido, maculado... Agora esquecido, pois ninguém olha para ele, todos olham para o chão. No máximo para alguém que está do lado, mas do pescoço para baixo! Todos fogem dos olhos com medo de receberem (ou fazerem) a pergunta-incumbência:
“Decifra-me ou te devoro!”.
Preciso me virar, pois a qualquer momento a temperatura pode cair, eu terei que me encolher, sentirei mais frio, meu corpo tremerá e num desespero de sobrevivência eu me encolherei mais e mais, até o ponto de voltar-me completamente para mim mesma, tentarei sair mas não conseguirei. Olharei para o azul que me chamará (me chama), mas o azul estará inerte nas grades que continuarão a ser grades mesmo sendo azuis.


(Rio de Janeiro, 28 de maio de 2008
Alexandra Periard)

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