domingo, 30 de setembro de 2007

Romance

Ele marcou um jantar inesperado numa quarta-feira à noite. Pelo tom de voz ao telefone, não seria exatamente romântico. Mesmo assim, na hora marcada, ou uma meia horinha depois da hora marcada, ela apareceu linda, chamando a atenção dos outros clientes do restaurante. O garçom puxou a cadeira. Ela sentou-se, elegante. O marido já estava lá, suando (ele costumava suar muito), parecia nervoso. Sob a luz da vela ao centro da mesa, ela segurou a mão dele e disse:
— Desembucha, Paulo. Ele limpou o suor no guardanapo de pano, olhou para os lados e pigarreou.
— Dessa vez você foi longe demais...
— O livro?
— Claro. O livro, essa droga desse livro.
— Eu sabia. Você está misturando as coisas, Paulo. Eu sou uma escritora, é a minha profissão, você sabe disso.
— Claro que eu sei, eu sempre admirei o seu talento, foi o que aproximou a gente. Mas era bem diferente naquela época. Você escrevia contos eróticos, lembra? Aquilo, sim. Eu li um deles e pensei: “preciso conhecer essa mulher”.
— Qual foi mesmo?
— “Orgias na escada”.
— Era um conto romântico.
— Eu lia tudo o que você escrevia. Os textos eram picantes, sensuais, não tinha ninguém melhor do que você para descrever uma, uma...
— Paixão?
— Putaria...
— Agora é putaria? Antes você dizia que era arte...
— Mas é arte! Claro que é! O que seria da arte sem a putaria? Inclusive, depois da gente se conhecer, os textos ficaram bem mais ricos. Você descrevia tudo o que a gente fazia, lembra? Teve aquele conto do metrô, o da obra abandonada, o do tanque do leão-marinho...
— Esse foi um dos melhores.
— Aquilo era um fetiche para mim, quando a gente transava era como se todos os seus leitores estivessem olhando. Aí veio o primeiro romance, uma obra-prima.
— “Meu marido insaciável”. Imaginei que você fosse gostar.
— E o seguinte, então: “Um verão em 69”.
— Nossas primeiras férias, em 1993.
— Depois vieram “Quanto mais, melhor”, “O que é possível no Kama Sutra”, “O martírio de um estrado”, tantos que eu nem lembro de todos. O nosso amor estava lá naquelas páginas, de verdade. Os gestos, os toques, os cheiros. Até que, de repente, você vem com aquele livro mentiroso...
— Você tem que entender, aquilo foi quando eu comecei a escrever ficção, eu expliquei isso na época. Era ficção!
— “Broxada em Marte”, Silvia? E desde quando marciano usa meias? Bem na hora do sexo?
— Eram quatro meias! Você nunca usou quatro meias!
— Daí para a frente foi só esculhambação. “O amor já foi melhor”.
— Era um livro filosófico.
— “Decepções amorosas de uma samambaia”. Samambaia! Você podia ter arranjado um disfarce melhor!
— Não era disfarce, era uma planta! Você é muito desconfiado!
— A planta era escritora!
— Mas ela era ruiva, eu sou morena! Não tem nada a ver!
— Eu relevei, aceitei seus argumentos por todos estes anos. Mas esse livro novo eu não vou aceitar!
— Por que não? Você não pode reprimir a arte!
— “O homem do membro pequeno”, não! Aí já é demais!...
— É uma metáfora!
— Você não conseguiu me explicar essa metáfora até agora.
— É uma metáfora complexa, cada um entende o que quiser...
— Eu entendi muito bem. Dessa vez você subestimou a minha inteligência! E você que sempre disse que era de um tamanho bom... Eu quero o divórcio!
— Calma, vamos conversar!
— Nada disso! Eu não converso mais com você. Nem uma palavra. Senão depois vem o livro “O homem da conversa chata”. Chega! Acabou! Adeus!
Saiu irritado, esbarrando nos garçons. Ela ficou na mesa atônita, antes de tudo, surpresa com aquela reação. Não imaginava que algum dia o marido pudesse perceber as sutilezas da sua literatura. Pegou o telefone na bolsa e ligou para o seu editor, que era também um amigo.
— Hélio? É a Silvia. Meu marido pediu o divórcio.
— Por causa do livro?
— Foi.
— Eu imaginei que isso pudesse acontecer. Uma pena...
Um instante de silêncio nos dois lados da linha até que ela fala:
— Hélio, cancela o projeto.
— Como? Cancelar? Mas já está tudo encaminhado!
— Cancela. Agora.
— Pensa bem, Silvia! O seu marido já não pediu o divórcio? Para quê cancelar, então? Não vai adiantar nada!
— Eu sei, eu sei, não é isso. É que, depois do que aconteceu, eu prefiro publicar aquele outro, que eu escrevi antes, sabe? Agora dá.
— É verdade, bem pensado, aquele é até melhor do que o novo.
— Eu só quero fazer umas alteraçõezinhas, já faz algum tempo que ele foi escrito.
— E o que eu faço, então? Espero você mandar as mudanças?
— Isso, espera. Quer dizer, por enquanto já pode mudar o título.
— Por quê? Eu gostava tanto de “O amor e o vizinho”.
— Eu também gosto. Mas põe no plural.

(Marcelo Nogueira)

Um comentário:

SAMANTHA ABREU disse...

ahahahahaa
adorei!
minha cara, o estilo que adoro!

Beijos!